A marca que você cria não é a marca que o mercado entende
Nathan Mastrangeli · 24 de jun de 2026 · 4 min
Em 1993, a Snapple enfrentou um boato improvável: a empresa estaria financiando a Ku Klux Klan. A suposta evidência estava impressa no próprio rótulo.
De um lado, aparecia a letra “K”. Ao fundo, havia o desenho de um navio antigo. Para quem espalhava o rumor, o “K” significava Klan e a embarcação representava um navio negreiro.
Na realidade, o “K” indicava que o produto era kosher. O navio fazia referência ao Boston Tea Party. Os fundadores da Snapple eram três judeus do Brooklyn. A interpretação estava factualmente errada, mas isso não impediu que circulasse.
A empresa sabia o que aqueles símbolos significavam. O público, porém, não recebia o significado diretamente. Recebia uma letra, uma imagem e espaço suficiente para construir outra história.
Símbolos não carregam instruções de uso
Empresas costumam tratar a própria identidade como se houvesse uma relação estável entre intenção e interpretação. Escolhem uma imagem, uma palavra ou um conceito e presumem que o público verá aproximadamente aquilo que seus criadores enxergam.
Mas símbolos não chegam sozinhos. Eles são interpretados a partir de repertórios, experiências, desconfianças e contextos que a empresa não controla.
A pesquisadora Patricia Turner, ao estudar rumores que circulavam em comunidades negras nos Estados Unidos, observou que certas histórias se tornam convincentes não porque apresentem boas provas, mas porque encontram medos que já existiam. O rumor oferece uma forma visível para uma suspeita anterior.
O rótulo da Snapple não criou essa desconfiança. Apenas forneceu elementos ambíguos aos quais ela pôde se conectar.
Para a empresa, havia um selo kosher e uma referência histórica. Para parte do público, havia uma letra inexplicada e um navio associado a uma memória coletiva muito diferente.
A intenção permaneceu a mesma. O significado mudou conforme quem olhava.
A explicação correta nem sempre resolve
A Snapple tentou responder publicamente. Seus fundadores apareceram na MTV, anúncios foram publicados e a empresa negou o vínculo com a organização racista.
Essas respostas ajudaram, mas não atacavam completamente o mecanismo do boato. Enquanto os mesmos elementos continuassem no rótulo, a falsa evidência permaneceria disponível.
A solução mais eficiente foi alterar o próprio objeto da interpretação. A empresa passou a identificar explicitamente o “K” como kosher e a imagem como referência ao Boston Tea Party. Depois, retirou o navio do rótulo.
A Snapple não conseguiu determinar qual leitura o público deveria aceitar. Ela reduziu o espaço que permitia a leitura errada.
Essa diferença é importante para qualquer empresa. Quando um elemento sensível é ambíguo, explicar posteriormente pode ser menos eficaz do que remover a ambiguidade na origem.
O problema de conhecer demais a própria marca
Quem participa da construção de uma marca possui informações que o público não possui. Conhece a história do nome, o motivo das cores, a lógica do símbolo e a intenção por trás de cada palavra.
Esse conhecimento dificulta perceber o que existe diante de alguém que vê tudo pela primeira vez.
É o que a psicologia costuma chamar de maldição do conhecimento: depois que sabemos algo, temos dificuldade de imaginar como seria não saber. A empresa enxerga um conjunto coerente de significados. O estranho pode enxergar apenas uma forma, uma letra ou uma promessa vaga.
Isso aparece em situações muito menos dramáticas que o caso da Snapple.
A empresa escreve “excelência” porque conhece o cuidado da equipe. O cliente lê uma palavra utilizada por milhares de concorrentes. O fundador vê tradição em um símbolo. O público pode perceber conservadorismo, distância ou algo simplesmente ultrapassado. Uma linguagem considerada técnica internamente pode parecer evasiva para quem está tentando entender uma oferta.
Nenhuma marca consegue controlar todas as interpretações. Também não deve tentar explicar cada detalhe de sua identidade. Uma comunicação completamente blindada contra leituras alternativas se torna pesada, defensiva e sem personalidade.
O problema começa quando a ambiguidade atinge justamente aquilo que sustenta confiança, diferenciação ou segurança.
Clareza é uma forma de proteção
Antes de perguntar se um símbolo está bonito ou se uma frase representa bem a empresa, vale perguntar o que alguém sem contexto poderia concluir.
Não se trata de imaginar qualquer interpretação absurda. Trata-se de observar os pontos mais visíveis e sensíveis da marca a partir de uma posição menos favorável: alguém que ainda não conhece a empresa, não confia nela ou já chega com dúvidas.
Essa análise pode ser aplicada ao nome, à identidade visual, às promessas, à apresentação de preços, à descrição de serviços e até à forma como a empresa responde a críticas.
O significado final nunca pertence inteiramente a quem comunica. Ele surge no encontro entre aquilo que foi emitido e aquilo que o público já carregava antes de receber a mensagem.
A empresa não controla essa recepção, mas pode reduzir os espaços em que o mercado precisa adivinhar.
Em reputação, aquilo que parece óbvio por dentro frequentemente ainda é apenas ambíguo por fora.
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Perguntas frequentes
Não posso controlar o que dizem da minha marca?+
Você não é dono do significado; dono é quem recebe. O que você controla é a clareza: tirar a ambiguidade dos pontos sensíveis e visíveis, antes que alguém a preencha por você.
Preciso explicar cada elemento da marca?+
Não, isso paralisa. Foque nos elementos ambíguos e visíveis, diante de um público que pode chegar desconfiado. O resto pode respirar.
Como testo se algo é ambíguo demais?+
Olhe a sua marca como um estranho desconfiado olharia e pergunte o que dá para ler errado. Faça esse teste antes que façam por você.
Referências
- Snopes: o boato da KKK (1993); o 'K' (kosher) e o navio (Boston Tea Party) como falsa prova.
- Mental Floss: o rótulo reescrito, o navio removido e os fundadores judeus na MTV.
- Fast Company: por que a ideia grudou (Made to Stick).
- UC Davis: Patricia Turner e a lógica do rumor como projeção de medo coletivo.
Não deixe o mercado inventar a sua empresa.
A Mastrangeli Co. trabalha percepção, posicionamento e narrativa com mentalidade de dono, para poucos clientes por vez.
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